Em menos de seis décadas, o modelo saiu de uma novidade desconfiada na Faria Lima para se tornar infraestrutura urbana essencial. Entender essa trajetória ajuda a ler o que vem pela frente.
O shopping center é hoje parte tão natural da paisagem urbana brasileira que é fácil esquecer o quanto ele já foi uma aposta incerta. A história do setor no país é relativamente curta — pouco menos de sessenta anos — mas concentra lições valiosas sobre como modelos comerciais se consolidam, amadurecem e se reinventam.
O começo: uma ideia importada
O shopping center surge no Brasil na década de 1960, cerca de dez anos depois de o modelo ter ganhado força nos Estados Unidos. O marco inaugural é o Shopping Iguatemi, em São Paulo, aberto em 1966 por iniciativa do empreendedor Alfredo Mathias e de um grupo de investidores.
Naquele momento, a ideia enfrentava ceticismo. O comércio brasileiro estava ancorado nas ruas — em São Paulo, a Rua Augusta concentrava o fluxo e o prestígio. Propor que o consumidor trocasse a calçada por um ambiente fechado, climatizado e organizado em torno de estacionamento era, para os padrões da época, uma aposta contraintuitiva. A adesão inicial foi morna.
Os anos 1970: preparação silenciosa
Ao longo da década seguinte, ficou evidente que o país ainda não estava plenamente pronto para o conceito. Vários empreendimentos foram erguidos e distribuídos pelo território, mas poucos viveram um período realmente próspero de vendas. Esses anos funcionaram como uma espécie de curva de aprendizado — tanto para os operadores quanto para o público, que aos poucos se familiarizava com o novo formato de consumo.
Os anos 1980: maturação e profissionalização
Foi nos anos 1980 que o setor encontrou tração. O consumidor brasileiro, agora habituado, tornou-se frequentador ávido dos centros comerciais. O período é marcado pela construção de uma nova geração de shoppings, pela maturação da indústria e pela profissionalização da gestão — com o surgimento de ferramentas mais sofisticadas de administração e a organização do setor em torno de entidades representativas.
É também o momento em que aparecem os primeiros shoppings especializados, sinal de um mercado que já não se contentava com o formato único e começava a segmentar.
O presente e a próxima curva
Da novidade desconfiada dos anos 1960, o shopping center se tornou infraestrutura urbana. Mas a trajetória não terminou — ela apenas mudou de direção. Se as primeiras décadas foram sobre conquistar as capitais e o consumidor de classe alta, o ciclo atual aponta para a interiorização e para formatos mais flexíveis: centros de bairro, complexos de uso misto e modelos como o power center, pensados para cidades médias e para o consumo cotidiano.
Conhecer a história do setor não é exercício de nostalgia. É a forma mais segura de reconhecer o próximo movimento antes que ele se torne óbvio — que é, no fim, o trabalho de quem planeja.

